Artur e o Infinito

Por Gisele Sugai:

Uma mente diferente, uma questão pulsante.

Um filme de media metragem, para uma longa reflexão.

Arthur e o Infinito, de Julia Rufino, provoca nossa sensibilidade, e chama nossa atenção para uma questão pulsante. Tão pulsante quanto tantos outros fenômenos humanos, para os quais nem sempre estamos preparados para observar, diagnosticar e cuidar. Trata-se de uma criança autista, sua família e os caminhos percorridos dentro de cada um em busca de si mesmos.

E digamos que o mês de abril seja ideal para assistirmos a este filme, já que o Dia Mundial do Autismo, é celebrado anualmente em 2 de abril, e foi criado pela Organização das Nações Unidas com o objetivo de voltar os olhares do mundo para esta questão.

O filme nos empurra a observar as sutilezas da Síndrome do Espectro Autista (SEA), a comunicação complexa e os “maneirismos” do menino Artur, cujas primeiras palavras do medico por ocasião do diagnostico, foram:

“(…) O Artur não tem um problema. O que ele tem é uma mente diferente (…)”.

E girando em torno desta tal “mente diferente”, o filme nos descortina não apenas o comportamento de um filho autista, mas especialmente os conflitos de uma mãe buscando caminhos para compreender melhor o mundo desse filho.

Pois é… nossa atenção é inteligentemente desviada para a mãe, que neste caso é ‘saudável’, e não tem uma “mente diferente”. Se assistirmos ao filme lembrando-nos de alguns dos princípios da Slow Medicine (SM), e vamos perceber a importância de olhar para o conflito das famílias no dia a dia com seus filhos especiais. A SM nos ensina sobre o tempo para ouvir, para entender, para refletir. Tempo que deve ser destinado não apenas ao paciente, mas também aos seus cuidadores. A SM nos fala sobre os valores, expectativas e preferências do paciente, onde estão envolvidos o ambiente de cuidados e sua família. E se muito atentos, continuarmos caminhando com a autora pelo filme, vamos nos encontrar com outro principio da SM: paixão e compaixão – a paixão pelo cuidar e o sentimento da compaixão na atenção médica. Neste caso, vamos perceber a necessidade dessa paixão e compaixão voltadas para a mãe do menino Arthur. Sim. A mãe. Porque o médico cuida do paciente, a mãe cuida também, mas quem cuida da mãe? Quem cuida do Cuidador?

Artur e o Infinito nos convida a olhar através do “doente, através das doenças”, e perceber que em torno do paciente existe um mundo que talvez desconheçamos. Existe um mandala de conflitos, emoções e necessidades familiares que interferem diretamente no prognostico. E nós, médicos, precisamos nos lembrar que o cuidador, precisa ser reconhecido como peça fundamental na recuperação do nosso paciente, e no sucesso do tratamento proposto por nós.

Você encontrará a poesia do sofrimento nas entrelinhas. E é bem possível que você se recordará de algum cuidador, para o qual você deve voltar seus olhos, e estender sua compaixão.

E como bem fez a Organização da Nações Unidas, que criou o Dia Mundial do Autismo, quem sabe nós, juntos, possamos criar o Dia Mundial do Cuidador!!!

Assista a este filme… Sem medo de errar!

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Gisele Sugai, médica, apaixonada pela medicina praticada no seio das famílias, defensora do SUS e da Atenção primária há 20 anos, trabalhando atualmente na Assessoria Técnica Médica da Organização Social Santa Catarina, no município de São Paulo.

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Julia Rufino se formou em direção de cinema pela Academia Internacional de Cinema e há 7 anos trabalha no setor audiovisual. Atualmente, está trabalhando em dois projetos de filme: um curta metragem chamado Longe de Casa, que conta a história de uma família refugiada da Angola no Brasil e um longa metragem chamado Vera que fala sobre uma paciente que desenvolve o Mal de Alzheimer. Além desses projetos, Julia é também colaboradora da Iniciativa Slow Medicine.
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