Os caminhos de um médico

abril 2, 2025
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“O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes.” (Cora Coralina)

Por Manoel Paz Landim

As crianças chegaram à adolescência e, com isso, descobri o endereço do inferno. E ele não é tão distante quanto eu imaginava. O vizinho estacionou o carro atrás do meu. Se eu o tivesse encontrado dois minutos antes, o trânsito não teria me atrasado uma hora. A cidade tem comportamentos diferentes a cada segundo. Minha esposa está no climatério, a menstruação dela se transformou em enxurrada e o seu humor não obedece fases como a Lua Adversa da Clarice. Por isso chego a ter cinco mulheres diferentes. Pra finalizar, levanto mais de três vezes a cada noite só para não fazer xixi na cama. Nós, médicos, entendemos os recados da próstata, mas – com tantos chamados se acumulando – o urologista vai ficar para o próximo mês. Afinal, existem compromissos mais importantes, como o trabalho por exemplo.

         No consultório de cardiologia todos os pacientes atenderam os recados da curva de sobrevida, assim, o caçula não tem menos de oitenta anos. A idade aumenta, enquanto a audição diminui e a pressão arterial corre em velocidade máxima, incapaz de ser acompanhada pela capacidade cognitiva dos idosos. Poucos deles entendem as explicações, porém todos querem se fazer entender. Mesmo ao custo de repetirem a mesma frase por uma infinidade de vezes, também têm a necessidade de serem escutados, levados à sério, terem suas dores aliviadas, continuarem a viver e não serem escanteados. E não são diferentes dos meus adolescentes loquazes brigando por seus espaços, exigindo sua liberdade e privacidade. As dificuldades dos idosos, acredite, são muito semelhantes às nossas (os médicos). Como os vovozinhos, nós também ficamos perdidos quando a última diretriz repugna a antiga prática, já tão incorporada. Os médicos são muito reticentes quando são questionados, tendendo muito à autossuficência e perfeição.

         Quando um profissional da medicina sente-se desafiado ou questionado, é possuído pelo incontrolável desejo de repetir o funesto bordão “você sabe com quem está falando?”. Mas, disfarça e procura fazê-lo sutilmente, disfarçando os ímpetos ditatoriais sem medo de se auto-enganarem. É mais confortável tachar o nosso cliente de difícil, ou de  chato, enquanto nós mesmos não sabemos administrar os próprios egos, nem admitimos os próprios erros. Tanto a vida quanto a conduta do médico é baseada num falso poder, na herança de um tempo onde a inacessibilidade à informação os faziam detentores de toda a sabedoria. A arrogância, obviamente, é a filha dileta desse costume. Se, um dia, a consciência lhe passa uma reprimenda, ele transfere a própria culpa às atribulações do cotidiano (filhos em crescimento, esposa chata, trânsito péssimo). Vira para o lado e volta a dormir. Amanhã tem plantão e começa tudo de novo. 

         Se perscrutar sua intimidade não for suficiente para aplacar-lhe as frustrações, o médico deve estar atento. Precisa ser sagaz e esquivar-se das outras perigosas artimanhas disponíveis: o convênio não o remunera condignamente; as queixas do cliente remetem-se a uma especialidade diferente da sua; o tal “sistema” é cruel, não disponibilizando exames e internações em tempo decente; a instituição limita o atendimento a quinze minutos; preciso acabar logo para ir ao outro emprego; a profissão não é respeitada como deveria; não quero me comprometer. Essas fugas de realidade o impedem de se questionar, por isso é quase impossível vê-lo admitindo um equívoco, um raciocínio clínico ou uma conduta ser revista. Inquestionavelmente essas condições atrapalham a boa prática clínica, porém existem limites quando o assunto é atribuir as culpas aos fatores externos.

         Qualquer cidadão já aprendeu a necessidade de estar atento às adversidades. Não andar sozinho à noite, esconder o aparelho celular em lugares de alta incidência de furtos, fazer o seguro do carro, praticar a direção defensiva, são algumas delas. O médico, então, deveria se comportar da mesma forma quando o assunto é o atendimento de uma pessoa lhe procurando justamente por estar vulnerável. Perceber e respeitar esse estado deveria ser a nossa pedra de toque. Quando uma pessoa está ferida física ou emocionalmente, ela reagirá da forma possível. O grande enrosco está na leitura das entrelinhas, pois nem sempre a maneira de expressar a dor, as angústias, ou os medos, será cordial ou agradável. Comumente a não aceitação e as dúvidas moldam os semblantes e as palavras, comprometendo a comunicação e interferindo negativamente na famosa empatia.

         Apesar de ser um vocábulo muito utilizado, a empatia não se aprende na universidade, apesar das tentativas de humanização das grades curriculares. Essa qualidade, apesar de inata, precisa ser trabalhada. Ironicamente, os mesmos médicos queredores de reconhecimento, deixam de investir nesse aperfeiçoamento. Pelo menos não tanto quanto investem em tecnologia. Costumamos confundir o termo com simpatia pela semelhança gráfica e sonora, mas ter empatia não é só tratar alguém com urbanidade e educação. Se, literalmente, não tratamos o outro como gostaríamos de ser tratados (ou como gostaríamos de ver nossa mãe ou filho o serem), significa não entendemos nada desse conceito. Consequentemente, não o praticamos. 

         O médico não precisa é ser ingênuo, ignorando as tentativas existentes de explorá-lo. O exercício da humanidade não o faz um idiota, só o livra de ser menos desumano. Sempre haverá quem queira um atestado falso, um exame desnecessário, um laudo favorável, mas essas serão as exceções. Os espertalhões deixarão de procurar o médico não disposto a ser corrompido. Ceder às tentações da indústria fazem parte desse estratagema, e isso também requer grande entendimento da realidade e capacidade de lidar com situações adversas. Obviamente a honestidade não é uma característica a ser posta à venda, por isso não é prudente sair de casa sem ela, nem para ir ao mercado.

         O paciente bonzinho, cordato, compreensivo, é a exceção. Todavia, a brutalidade e a dificuldade de relacionamento fazem parte da doença dele. Vem no combo, como é corriqueiro dizer. Uma das regras básicas da comunicação é a efetividade. Tratando um semelhante da mesma forma como se é tratado, pode significar um ruído nesse processo. Ambos lados não se farão entender. Tirar os olhos – e a atenção – da ficha a ser preenchida na tela do computador faz parte. Pedir licença antes de desviar o olhar para escrever os dados vem logo em seguida. Não se restringir às escalas de dor e de fragilidade não é negligenciar as evidências, mas prestigiar quem precisa naquele instante. Quando chegar a vez da prescrição, os números dessas calculadoras terão o seu lugar. Calma. 

         Não dá para ignorar as condições do ambiente, mas ela é ruim também para o paciente. Lembremos: ele não gostaria de estar ali (com as ressalvas explicadas pela psiquiatria). O equacionamento dessa situação não depende de uma ação individual, as entidades classistas estão aí para isso. Se quisermos falar grosso, falemos com os representantes eleitos por nós, não com o paciente. Agindo de modo contrário, talvez devamos pensar no uso do termo covardia. Além de inepta, essa ação é injusta. Um médico vulnerável está sujeito às reações instintivas e elas, por prescindirem de raciocínio, alimentam só o básico e momentâneo.

         Quem queira sair do trabalho com palavras de agradecimento, precisa – antes de mais nada – estar contente com o seu próprio desempenho. Quando o profissional gosta da profissão, ele se contenta com o seu exercício. Os médicos das associações humanitárias estão à disposição para ilustrar essa afirmação, antes dela cair na vala dos lugares comuns e da hipocrisia. Idem os voluntários e quem se empreste para a chamada das ações comunitárias. Gostamos muito de nos comparar a países mais desenvolvidos social e economicamente. Pois bem, vamos adiante nessa seara. Um dos quesitos para ser admitido numa universidade de excelência nas terras estrangeiras, é a participação do candidato nas atividades beneméritas, voluntárias e comunitárias. Sinal iniequívoco da necessidade de se colocar (e permanecer) a serviço de alguém. Não para somar pontos em concurso, mas para contribuir na realização pessoal e, consequentemente, no próprio bem estar.         

Seria egoísmo pensar só nas manifestações de congraçamento depois de uma conduta médica. O agradecimento vem do íntimo, sem espera. Lidar com esse tipo de frustração é outra exigência de esforço, passível de ser remediado com atividades extra-médicas, como conseguem fazer as artes em geral. Os médicos músicos, escritores, pintores, cinéfilos, amantes do teatro, são as exceções. E, se a grana anda pouca, experimentar criar os próprios clubes de leitura, frequentar manifestações gratuitas, ou simplesmente caminhar pelo bairro, não exigirá nada além de disposição e bons olhos. Certamente será menos árduo esperar a adolescência acabar, a menopausa se instalar e a próstata dar uma aliviada. De quebra, vamos contribuir para não deixar as dificuldades servirem de desculpa para o nosso egoísmo. Seguir adiante sem a pressa de chegar (onde quer que seja) pode resultar em caminhos surpreendentemente mais plenos.


Manoel Paz Landim: cardiologista e professor de medicina, autor do romance Os Amores da Serpente.

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Rafarusso Dimitri
Rafarusso Dimitri
10 horas atrás

Sensacional! Linda crônica!

Ayne
Ayne
10 horas atrás

Parabéns, doutor. Reflexões importantes.

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