Slow Medicine – um conceito em evolução

Por Dario Birolini:

Embora aparentemente óbvio e simples, o conceito de “slow medicine” é, em realidade, abrangente e complexo. De fato, além de propor uma modificação impactante dos padrões atuais do exercício da profissão, incentiva os pacientes e a sociedade a participar ativamente deste processo. Desperta no médico a necessidade de fazer uma análise crítica de sua própria atuação e dele exige a interação e a integração com profissionais que exercem tanto a medicina tradicional como outras formas de medicina. Para que você possa ter uma visão holística da “slow medicine”, tenho a certeza de que o texto apresentado a seguir, divulgado pela Associação Italiana de Slow Medicine e traduzido por mim, será de grande utilidade.

 

SLOW MEDICINE

(Tradução do Italiano: Dario Birolini )

A SLOW MEDICINE

É o caminho para um tratamento sóbrio, respeitoso e justo, partilhado pelos profissionais da saúde, pelos pacientes e pelos cidadãos;

É, substancialmente, uma mudança de paradigma, é um caminho que se define ao afrontá-lo, é um espaço aberto no qual se confrontam, em pé de igualdade, diferentes alternativas de tratamento. “Confronto” não significa competição: De fato, o objetivo da SM não é de estabelecer quais sejam os caminhos mais “justos” ou mais corretos em termos abstratos, com base em teorias abrangentes ou em provas de eficácia, mas sim identificar os caminhos mais apropriados a serem adotados nas situações clínicas específicas. Nenhuma medicina é conceitualmente “slow”;

É um sistema complexo, no qual se encontram e interagem numerosos e diferentes elementos: alguns destes elementos representam a medicina científica, outros propõem modelos que a medicina ocidental define como “não científicos”. Não se pretende inventar uma integração entre elementos heterogêneos, nem selecionar os aspectos “bons” de cada modelo para construir uma colcha de retalhos, nem alastrar outras formas de pensamento e de ação. Trata-se, pelo contrário, de fazer o possível para que, do confronto, possa nascer um novo modelo de tratamento compartilhado, um sistema no qual as relações dinamicamente intercorrentes entre os diferentes elementos que dele participam promovam mudanças;

Propõe uma área de confronto, de discussão das próprias certezas, através da qual seja possível aceitar e disponibilizar, para benefício dos pacientes e dos cidadãos, e com sua constante colaboração, tudo o que, baseado nas diferentes experiências, possa resultar útil ou vantajoso em termos de saúde, de bem-estar, de autonomia na tomada de decisões, sob uma visão otimística da saúde que consista substancialmente em uma vida vivida plenamente e completamente. O padrão atualmente dominante, pelo contrário, interpreta esta atitude como uma competição, uma guerra pelo poder, entre estruturas piramidais ou entre profissionais, que resulta no verdadeiro esmagamento do paciente.

Tem uma visão sistêmica, de enredo; em nenhum momento a visão linear, voltada para a relação causa/efeito, deveria ser prevalente ou dominante. Embora possíveis e, às vezes, necessários, os caminhos lineares constituem-se em simplificações que nunca devem permitir que se esqueça a complexidade do desafio;

Não propõe verdades; de fato, é a partir das dúvidas que aumentam os conhecimentos; quem já acredita de saber tudo é, por definição, um “fast”;

O PROFISSIONAL SLOW

Pratica a evidence based medicine entendida como a integração dos resultados da pesquisa clínica, com a experiência própria e com as exigências e os valores do paciente e das pessoas próximas a ele, com base na relação entre os benefícios, os riscos e as incertezas;

Adota uma rigorosa postura ética; o paciente e as pessoas que lhe são próximas são o centro das intervenções cujo objetivo destina-se a aumentar o bem-estar psíquico e físico e a autonomia na tomada de decisões;

Presta muita atenção para que os pacientes não sejam manipulados ou usados para a obtenção de vantagens para si próprio, para não aproveitar sua fragilidade com o intuito de criar dependência, para não oferecer informações equivocadas ou incompletas, para não denegrir outras formas de tratamento, para não crer ou não induzir o paciente a acreditar que ele possui o conhecimento “verdadeiro” e completo e para não deixar de ter consciência de seus limites;

Possui uma profunda consciência de quais são os limites da medicina e não propõe aos pacientes tratamentos que sejam excessivamente onerosos ou que tenham vantagens excessivamente hipotéticas ou duvidosas;

Está ciente que a saúde deve ser defendida e protegida em nível social, econômico, ecológico, sistêmico e, em consequência, deve ser o foco central de todas as políticas públicas, e não apenas da política sanitária. Por estas razões, torna-se necessária uma avaliação sistemática do impacto das políticas públicas na saúde dos cidadãos;

Antes mesmo de ser um técnico competente, é um educador: daí resulta o impacto dos aspectos de comunicação e de relacionamento durante todo o tratamento, posturas estas que implicam a participação constante dos cidadãos na gestão da saúde;

Coloca-se as seguintes questões: qual é o campo de atuação que minha atuação profissional abrange? O que proponho funciona e me permite obter resultados úteis para o bem-estar do paciente? Quais são os possíveis efeitos adversos associados? Como avalio as melhorias alcançadas? De que forma as orientações que proponho a meus pacientes se integram de forma útil e sustentável com outras orientações e com outros padrões de tratamento aos quais eles tenham acesso?

Estuda, pesquisa e se integra com outros profissionais, para poder explicar ao paciente quais procedimentos são comprovados, quais são fruto de experiência e quais são fruto de opiniões;

É capaz de reconhecer o que não sabe e evita adotar posturas de autopromoção.

SLOW MEDICINE E O EFEITO PLACEBO

O efeito placebo não respeita as regras dos princípios científicos e infringe sistematicamente suas leis: por estes motivos é negligenciado pela medicina “científica”. Entretanto, a eficácia das “outras medicinas” poderia estar embasada exatamente sobre este tipo de efeitos, ou seja, sobre sua capacidade de despertar no paciente a perspectiva de cura, sem despertar efeitos colaterais adversos: daí a importância de estabelecer uma forte relação entre quem cura e quem é curado.

A SLOW MEDICINE E AS “OUTRAS MEDICINAS”

Preferimos usar o termo “outras medicinas”, pois não consideramos correto falar de medicinas “alternativas” (palavra que implica conflito entre certezas: ou uma ou a outra), e nem de medicinas “complementares”, que parece implicar que uma modalidade de medicina seja mais “verdadeira” das demais, que nada mais seriam do que simples “complementos”.

Em nenhuma hipótese as “outras medicinas” devem ser usadas em substituição a tratamentos de comprovada eficácia. Da mesma forma que na medicina científica tradicional, também nas “outras medicinas” devem ser avaliados os possíveis riscos assim como a relação entre benefícios, riscos e incertezas.

Os profissionais que pretendem participar da Slow Medicine devem estar dispostos a abrir a discussão a respeito das suas próprias condutas. Aqueles entre nós que se identificam na “evidence based medicine” já o fazem, adotando a postura “Fazer mais não significa fazer melhor”.

Todos os que representam as “outras medicinas” são convidados, seja através de associações ou grupos de trabalho como individualmente, a identificar as condutas de sua própria forma de atuação que consideram que possam correr riscos de ser inapropriadas, avaliando a relação de risco-benefício; tal postura deve ser adotada para mostrar que não pretendem inserir na Slow Medicine certezas ou receitas pré-confeccionadas, mas sim dúvidas e questionamentos.