O direito ao luto sem pressa

Por Ana Célia Rodrigues de Souza:

Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.

Eclesiastes,3,1

Ao longo destes últimos vinte e cinco anos, venho praticando meu ofício de ouvir histórias de sobreviventes de processos de mortes. Pessoas que buscam ajuda para lidar com suas perdas, concretas ou metafóricas: a morte de uma pessoa significativa, tentativas de suicídio sem a consumação da morte, relacionamentos amorosos desfeitos, mudanças no status financeiro, frustrações de desejos não realizados, aposentadorias compulsórias, mudanças abruptas dos papeis sociais,  a saída de casa dos filhos crescidos, o fim de cada etapa da vida – da infância, da adolescência, da “adultice” fértil acompanhada de produtividade quantitativa – ou mesmo, o nascimento do primeiro filho com a perda da “solteirice”; além disso, a perda da vitalidade física, seja por alguma patologia, ou pela própria senescência. Keleman  e Kovács denominam estas vivências de “pequenas mortes”, enquanto Yalom de “experiências de despertar” (perdas seguidas de grandes transformações na vida). E um encontro com esses ‘eventos’ demanda um tempo de elaboração: o luto.

Na atualidade, nesta nossa “pós-modernidade líquida” [denominação que tomo emprestada de Zygmunt Bauman todas estas vivências de perdas – ou o que nós analistas junguianos chamamos de mortes simbólicas – são agrupadas pelo senso comum em um único termo: ‘depressão’, que nos diz muito pouco sobre estas experiências demasiadamente humanas, constituindo-se de um conjunto de sintomas selecionados para um rótulo retirado dos manuais diagnósticos e estatísticos de transtornos mentais (DSMs). Estes códigos diagnósticos se originaram por uma demanda específica de padronização da linguagem para a pesquisa psiquiátrica e acabaram, a meu ver, sendo mal utilizados na prática clínica.

Horwitz & Wakefield já criticavam o DSM-IV e o momento atual da psiquiatria (agora baseado na quinta edição), que faz diagnósticos ignorando a relação entre os sintomas e o contexto do paciente, patologizando o sofrimento, que poderia ser encarado como uma capacidade natural humana, uma função adaptativa de reações normais à perda, resultado de um projeto biológico.

Não se trabalha a história, não se respeita os valores individuais dos pacientes, que são atendidos por meio de entrevistas dirigidas e objetivas, com o propósito de se preencher categorias diagnósticas com um conjunto de sintomas, sem tempo para uma escuta respeitosa e cuidadosa, com real interesse no sofrimento do outro, e muitas vezes sem a capacidade de acolher angústias existenciais, que geralmente são mútuas, isto é, tanto de quem fala como de quem ouve.

De modo geral, o ‘deprimir-se’ é considerado desagradável e não desejável, assim como a morte. No entanto, parece fundamental para que se possa superar ou ressignificar a dor, encarar o sofrimento e vivenciar lutos, não apenas pela morte de pessoas queridas, como também em razão das “pequenas mortes”.

Moore denomina estes processos de “as noites escuras da alma” – expressão do místico e poeta espanhol São João da Cruz (1542-1591) – e os considera de grande importância para as transformações necessárias às demandas do cotidiano, dizendo-nos:

“Alguém que passa por uma noite escura pode dizer: “Ajude-me. Estou deprimido. Tire-me daqui”. Mas como você poderia tirá-la de um processo natural de mudança? Como pode curar alguém da autotransformação? O problema é que não pensamos mais em termos de passagens e transições.”

Atualmente, este “tire-me daqui” implica numa expectativa do paciente “impaciente” [termo sugerido pelo Prof. Dr. Dario Birolini no prefácio do livro O Doente Imaginado”, de Marco Bobbio de que seu sofrimento só poderá ser resolvido com ‘uma bala mágica’ que os retire dessa ‘noite escura’ e rapidamente, “influenciados pelo “doutor Google” e por notícias divulgadas em jornais e revistas, claramente motivadas por interesses econômicos ou pessoais”. E de modo geral, acolher pacientemente a pessoa, ouvir atenta e respeitosamente o relato de suas dores, com empatia e compaixão, com o intuito de ajudá-la a elaborar sua perda, não satisfaz os ‘apressados’, que sentem como se nada fosse feito, e a consulta não tivesse valor por não obterem a receita do medicamento desejado e/ou a solicitação de muitos exames. A meu ver, um grande equívoco, aí está a pedra filosofal do ofício do psiquiatra: saber ouvir, saber o que e quando falar e calar. Tarefa nada fácil e, não só do psiquiatra, mas de todos os médicos de qualquer especialidade, ou mesmo de qualquer ser humano!

O processo psíquico de se refazer a partir das perdas, e não só das pessoas significativas, é um momento de afetos confusos, muitas vezes, paradoxais: de alívio e culpa, ainda acompanhado por “dor, tristeza, pesar, desgosto, angústia, entorpecimento, exaustão, remorso, (‘desejo de’) solidão”, entre outros, conforme relata ter sentido Butler após a morte de seus pais. É um momento de se experimentar as ausências e da oportunidade de se retomar a vida, compreendendo aspectos diferentes de nós mesmos, que só notamos após estas vivências.

É preciso um trabalho de elaboração psíquica frente a estas demandas, como respostas de adaptação, um trabalho de desconstrução da presença e reconstrução da ausência. É um tempo necessário de construção da presença da ausência, como a memória, que na mitologia grega é representada pela deusa Mnemosyne, mãe das musas, que inspiram os poetas e os profetas, aqueles que têm contato com o mundo dos mortos, o além, o mundo de Hades ou Plutão.

Saber lidar com a morte talvez possibilite, como dizem vários autores, saber viver a vida! Eros (a energia de vida) e Tânatos (a energia de morte) estão constantemente medindo forças dentro de nós. Temos células nascendo e morrendo a todo o momento.  O morrer evidencia que não temos controle frente à nossa totalidade. A vida implica um movimento constante de abertura, a eterna renovação, um fluxo contínuo. Mas, constante, contínuo não significa rapidez, pois há que se respeitar o tempo apropriado para a transformação psíquica de cada um.

Porém, a insensibilidade, a intolerância, a dificuldade de lidar com a dor física ou psíquica, as mudanças de valores culturais, a pressa, a perda de contextos, a falta de tempo e de paciência com e das pessoas, a supremacia do biológico ao biográfico do ser, a hipervalorização da materialidade, do racionalismo, da objetividade, e o abuso de psicofármacos, que promovem uma anestesia e bloqueio da capacidade de reflexão crítica sobre questões fundamentais da vida – como a morte, por exemplo, que é negada, dissociada – além da anestesia promovida pelo consumismo desmedido, incapacita-nos ainda mais para esta vivência de ser mortal.

A pressa da atualidade, pressa de ter tudo na hora, pressa de resolver os problemas, as dores e os sofrimentos, esta sim é a verdadeira inimiga a ser combatida e não a morte.

Segundo Alves: “O tempo da alma é vagaroso. […] Desde que a pressa se instala, a alma se recolhe e somos projetados na voragem do tempo exterior.” E ainda:

“Quem observa os ritmos da natureza acaba por ganhar equilíbrio pessoal. […] Somos seres da natureza como os animais e as plantas. E a natureza é sempre vagarosa. É perigoso introduzir a pressa num corpo que tem suas raízes na lentidão da natureza .”

E muitas vezes, a pressa começa num momento muito delicado e íntimo. Quando temos um parente que morre no hospital ou outra instituição, nem se dá um tempo para que os familiares, amigos e cuidadores possam se despedir junto ao corpo – uma atitude que auxilia algumas pessoas a se organizarem emocionalmente após a notícia – pois o leito precisa estar disponível rapidamente, entre outros procedimentos logísticos das instituições (McCullough , 2009).

Para Pessini ,

[…] vivemos em um momento cultural sócio-histórico, no âmbito das terapias de saúde dominado pela analgesia, em que fugir da dor é o caminho racional e normal. À medida que a dor e a morte são absorvidas pelas instituições de saúde, as capacidades de enfrentar a dor, de inseri-la no ser e de vivê-la são retiradas da pessoa. Ao ser tratadas por drogas, a dor é vista medicamente como um barulho disfuncional nos circuitos fisiológicos, sendo despojada de sua dimensão existencial subjetiva. Essa mentalidade retira do sofrimento seu significado íntimo e pessoal, e transforma a dor em problema técnico.

Em entrevista sobre seu livro Antropologia da Dor, o antropólogo francês David Le Breton refere:

“A experiência mostra que o médico fixado no organismo só se interessa pela dor, e não pelo sofrimento. Ou seja: a experiência vivida por seu paciente, ele nem mesmo a escuta. Seus olhos estão fixados nas imagens ou nos exames. Para mim, o trabalho do médico implica capacidade de criação, de invenção, de recuperação, um jogo entre o conhecimento e o que ele sente, e que o leva a retomar uma conversa ou um sintoma. […] Penso que a eficácia terapêutica implica um mínimo de empatia. Acontece que o ser humano não é uma máquina nem a dor um mecanismo. O elo entre o primeiro e a segunda está costurado por ambivalências, afetividades e contextos socioculturais, que as tomografias não conseguem mapear (Manir).”

Pelo próprio significado etimológico de ‘psiquiatra’ – do grego: psykhè, alma; e íatros, médico – como médico da alma, fica muito difícil aceitar o manejo proposto na atualidade. Do ponto de vista pessoal, não consigo considerar o complexo comportamento humano como apenas um epifenômeno de uma sinapse, embora tal complexidade permaneça no campo do mistério, suspenso entre dois outros mistérios: a vida e a morte.

Retornando ao processo de elaboração das perdas, isto é, o luto, os processos necessitam de tempo. Assim como um processo de cura de uma ferida física precisa de tempo, assim como tudo demanda tempo para recuperar seu equilíbrio, a alma também precisa de tempo para cicatrizar. As cicatrizes, por vezes, até continuam doendo, incomodando, mas podemos ressignificá-las quando encontramos sentido no sofrimento e, além disso, estas marcas de momentos tão importantes de nossa existência nos dão identidade.

Antes de rotular com qualquer diagnóstico e medicar – o que geralmente é feito na primeira consulta – é necessário muito tempo de observação: da pessoa, de sua história de vida, de seus valores, como também, da compreensão da ‘depressão’ – ou, como utilizo aqui, a ‘vivência de perda seguida de luto’ – como uma expressão natural da psique (alma), que nos transportaria para um lugar simbólico promotor de reflexões sobre nossos valores e estilo de vida. Há muito trabalho a ser feito pelos sobreviventes! Muitas peças de si mesmo para serem reencaixadas.

Quando discutimos sobre a questão se um período de luto superior a duas semanas já deveria ser diagnosticado como doença, como está proposto no DSM-V, torna-se duvidoso se realmente estamos dispostos a dar o tempo necessário para nossas psiques se adaptarem às mudanças importantes, como à perda de pessoas significativas em nossas vidas, por exemplo. A psique está confusa, aflita e surgem novos problemas com os quais talvez não saibamos lidar neste estado ferido.

E é nesta situação que esperam que voltemos a funcionar “normalmente” dentro de duas semanas? Luto não é doença e sim, uma reação normal e sensata frente à confrontação com a morte e que ajuda a lidar com a perda, reorganizar-se, harmonizar-se; é uma das experiências existenciais mais fundamentais (Kast).”

No entanto, do modo como as consultas psiquiátricas têm sido realizadas, seguindo os manuais diagnósticos e focando na tecnologia, ficamos obrigados a fingir que nada aconteceu, nada mudou e a vida deve continuar; não se pode chorar, ficar triste, ou perder a alegria de viver. “Com o crescimento do componente científico, a medicina perdeu o componente humano. Fala-se aos pacientes com números e não mais com o coração” (Bobbio).

Dentro desta perspectiva é que o movimento SlowMedicine – ou a medicina sem pressa – pode nos ajudar a promover um resgate de uma prática psiquiátrica mais humanizada. O movimento enfatiza o cuidado focado no paciente, com a escuta cuidadosa e respeitosa de sua história e seus valores. Apresenta como “eixo essencial do exercício da medicina: uma relação médico-paciente” (Birolini) sólida, criando laços estreitos e duradouros. Considera que o tempo e a atenção ao paciente melhoram a tomada de decisão. Cultiva a arte tanto de não intervir na autonomia e autocuidados, como da sabedoria da observação clínica. Tem como foco a humanização e não a tecnologia. E por fim, defende a aceitação do inevitável. Estes são princípios dos quais a psiquiatria da atualidade parece encontrar-se bastante carente.

E como diz Rubem Alves : “Os que bebem juntos da mesma fonte de tristeza descobrem, surpresos, que a tristeza partilhada se transmuta em comunhão”.

Referências

ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. São Paulo: Planeta, 2014.

BAUMAN, Zygmunt. O Mal-Estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

BIROLINI, Dario. Prefácio, in: BOBBIO, Marco. O doente Imaginado. São Paulo: Bamboo Editorial, 2016.

BOBBIO, Marco. O doente Imaginado. São Paulo: Bamboo Editorial, 2016.

BUTLER, Kattherine Anne. Knocking on Heaven´s Door: The Path to a Better Way of Death. New York, NY: Scribner, 2014.

HORWITZ, Allan V. & WAKEFIELD, Jerome. A Tristeza Perdida – Como a psiquiatria transformou a depressão em moda. SP: Summus, 2010.

KAST, Verena. A alma precisa de tempo. Petrópolis: Vozes, 2016.

KELEMAN, Stanley. Viver o seu Morrer. São Paulo: Summus, 1997.

KOVÁCS, Maria Julia. Morte e Desenvolvimento Humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2013.

MANIR, Monica. A duras penas. O Estado de S. Paulo. Caderno Aliás. Publicado em 11/07/2015.

McCULLOUGH, Dennis. My mother, your mother: Embracing “Slow Medicine,” the compassionate approach to caring for your aging loved ones. New York, NY: Harper, 2009.

MOORE, Thomas. Noites escuras da alma. Campinas: Verus, 2009.

PESSINI, Leo & BERTACHINI, L. Espiritualidade e cuidados paliativos. In: BERTACHINI, L. & PESSINI, Leo (orgs.). Encanto e responsabilidade no cuidado da vida: lidando com desafios éticos em situações críticas e de final de vida. São Paulo: Paulinas: Centro Universitário São Camilo, 2011.

YALOM, Irvin D. Mirar Al Sol: La superación del miedo a la muerte. Buenos Aires: Emecé Editores, 2008.

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Ana Célia Rodrigues de Souza

Sou médica psiquiatra, formada pela FMUSP em 1992, obtive meu mestrado em Ciências do Comportamento pelo ICB – USP em 1998 e atualmente sou doutoranda do Instituto de Psicologia da USP. Analista junguiana , sou uma apaixonada por orquídeas e jardins botânicos, “cinéfila” e leitora voraz, que como Jorge Luis Borges, penso que o Paraíso deve ser uma espécie de Biblioteca. Buscadora, andarilha, caminhante, adoro viajar tanto para locais conhecidos – seguindo o conselho de Proust, com novos olhares para os mesmos lugares – como me aventurar por onde desconheço. Aos cinquenta anos, no climatério, vivencio minhas “pequenas mortes”: final da fertilidade biológica e um casal de filhos saindo de casa, mas deixando tempo e espaço para o ócio criativo.